Como os traumas de infância afetam a saúde ao longo da vida

Fonte da imagem: TED

Navegando pelo TED há alguns meses, me deparei com esta apresentação da pediatra Nadine Burke Harris. Ela me tocou muito profundamente, pois deixa mais do que explícita a urgente necessidade de cuidarmos de nossas crianças. A pediatra explica que o stress infantil constante de abuso, de negligência, de pais lidando com problemas de saúde mental ou de abuso de substâncias tem efeitos reais e tangíveis no desenvolvimento cerebral. Os desdobramentos afetam a vida de tal forma que, aqueles que experienciaram altos níveis de trauma, têm três vezes mais chances de ter doenças cardíacas e câncer de pulmão, além de uma redução de 20 anos em sua expectativa de vida. Ela ainda explica que a correlação entre tais vivências e os problemas de saúde nada têm a ver com os comportamentos de risco (que poderiam ter sido adotados por conta de tais vivências), mas sim que a repetição e intensidade de tais vivências afetam profundamente a forma do nosso próprio corpo de funcionar.

“Altas doses de adversidade não apenas afetam a estrutura e as funções cerebrais, mas também o sistema imunológico em desenvolvimento, o sistema endócrino em desenvolvimento e até a forma como nosso DNA é lido e replicado.” – Nadine Burke Harris

Os estudos conduzidos por ela tiveram inspiração no Estudo de Experiências Adversas na Infância, conduzido por Dr. Vince Felitti na Kaiser, e pelo Dr. Bob Anda no CDC com 17.500 adultos.

Juntos, eles perguntaram a 17.500 adultos sobre seu histórico de exposição àquilo que chamaram de “experiências adversas na infância”, ou EAI, que incluem violência sexual, física ou emocional; negligência física ou emocional; doenças mentais, dependência química ou prisão dos pais; separação ou divórcio dos pais; ou violência doméstica. Para cada “sim”, você recebia um ponto no seu quadro de EAI. Então, eles correlacionaram as pontuações de EAI e os resultados na saúde. O que eles descobriram foi impressionante. Duas coisas: primeiro, as EAIs são incrivelmente comuns. Sessenta e sete por cento da população tinham pelo menos uma EAI, e 12,6%, uma em cada oito, tinham quatro ou mais EAIs. A segunda coisa que descobriram foi que havia uma relação entre as EAIs e os resultados na saúde: quanto maior a pontuação de EAI, piores os resultados na saúde. Para uma pessoa com uma pontuação de EAI de quatro ou mais, o risco relativo de doença obstrutiva crônica dos pulmões era 2,5 vezes maior que o de alguém com uma pontuação zero de EAI. Para hepatite, também era 2,5 vezes maior. Para depressão, era 4,5 vezes maior. Para o suicídio, era 12 vezes maior. Uma pessoa com uma pontuação de EAI de sete ou mais tinha três vezes mais risco de morrer de câncer de pulmão e 3,5 vezes mais risco de isquemia cardíaca, a principal causa de morte nos Estados Unidos. – Nadine Burke Harris

Muitos pais ainda têm receio de levar seu filho à um psicólogo ou ainda de perceber e aceitar que talvez não estejam executando bem o seu papel de cuidadores, descarregando na criança toda a sorte de frustrações e raiva. No mundo em que vivemos, muitas vezes parece que está cada vez mais difícil estar presente de forma positiva na vida familiar.

O relacionamento com os nossos cuidadores são a nossa primeira experiência social, de amor, de afeto, de apego que temos em nossas vidas. A partir destas experiências criaremos determinadas formas de ser e de existir, de nosso funcionamento, pensamento, comportamento, entre outros. Não é à toa que, quando há problemas neste relacionamento, muitas vezes não conseguimos nos sentir tão bem com nós mesmos, com os outros e com o mundo à nossa volta.

Durante a vida adulta, lidamos com uma série de problemas e vivências outras que muitas vezes escancaram que a origem da dificuldade em lidar com certas coisas remonta à questões bem mais antigas. O trabalho psicológico se mostra como uma forma de poder entrar em contato com estas questões e poder encontrar novas possibilidades de ser para além destas vivências e apesar destas vivências, podendo também buscar quebrar a repetição que muitas vezes nos vemos presos.

Por essas e outras, fica nítida a importância de poder trabalhar ainda na infância/adolescência estas e outras experiências, num movimento de cuidado, prevenção e promoção de saúde às crianças/adolescentes e também de seus cuidadores. A saúde não pode ser vista de uma forma isolada, levando em consideração apenas a parte do corpo que está doente ou que não está funcionando tão bem. A saúde envolve nosso corpo, nossa mente, o mundo em que vivemos e as relações que estabelecemos. É com isso em mente que podemos cuidar melhor das pessoas e sermos pessoas mais saudáveis.


ATENÇÃO: O conteúdo deste site é de caráter informativo. Se você precisar de ajuda especializada, não hesite: entre em contato com um(a) profissional da sua cidade. Sempre que for utilizar algum texto de minha autoria, o faça em formato de citação, com os devidos créditos e link para a postagem original.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *