Estudo americano comprova: bater não educa – entenda por quê

Fonte da imagem: Rigueira Advocacia

Um estudo divulgado dia 07 de abril de 2016 no Journal of Family Psychology da American Psychological Association comprovou em números aquilo que muitos psicólogos defendem há tempos: bater não é uma forma de educar e ainda pode deixar uma série de sequelas no seu filho(a).

Se a palmada é útil ou não na educação das crianças, sempre foi tema constante de debate entre estudiosos e público. Pensando nisso, os pesquisadores Elizabeth Gershoff e Andrew Grogan-Kaylor iniciaram sua pesquisa. Os autores, se propuseram a abordar 2 questões persistentes sobre o tema: se os efeitos da palmada são distintos dos efeitos de um abuso físico; e se os efeito da palmada por si só é consistente para estudar diferenças.

“Nossa análise se concentra no que a maioria dos americanos reconhece como palmada, e não como comportamentos potencialmente abusivos”, disse Gershoff . A “palmada” foi definida pelo estudo como um tapa de mão aberta nas nádegas ou membros.

Meta-análises voltadas especificamente para a palmada foram realizados e identificados um total de 111 efeitos negativos com 160,927 crianças que foram acompanhadas por 5 décadas. Destes efeitos, 17 efeitos principais foram identificados. Além disso, 13 dos 17 efeitos principais indicaram uma ligação direta entre as palmadas e aumento do risco para o desenvolvimento de comportamentos agressivos, dificuldades cognitivas e escolares, psicopatologias e comportamentos antisociais.

Fonte da imagem: Poder Judiciário do Mato Grosso

Pra se ter uma ideia do quão prejudicial é a palmada, os resultados da pesquisa mostram que a magnitude dos efeitos não diferem substancialmente entre as palmadas, as surras e o abuso físico.

E a coisa piora: quanto mais frequentemente uma criança apanha, mais chances ela tem de desenvolver os efeitos descritos. Além disso, adultos cujos pais haviam batido neles também foram mais propensos a apoiar a surra e perpetuar o castigo físico para os seus próprios filhos, gerando um ciclo de violência e de prejuízos no desenvolvimento afetivo e pessoal.

Os pesquisadores enfatizam ainda que muitos pais estabelecem uma distinção clara entre surras benéficas e abuso físico prejudicial. No entanto, o que os estudos mostram é que tanto a surra quanto o abuso apresentaram resultados negativos nas crianças, quase no mesmo grau.

Fonte da imagem: Nerd Pai

Frequentemente os pais batem nos seus filhos como uma forma de reduzir o comportamento indesejável e aumentar o comportamento desejável. Buscando saber se a agressão parental (palmada) diminui a agressão na criança, a resposta encontrada foi categórica: NÃO. Na verdade, as palmadas tendem a aumentar a agressão infantil. “Uma palmada serviu de aumento na agressividade das crianças acima dos níveis iniciais [de comportamento agressivo]” e “em nenhum desses estudos longitudinais mostrou que as palmadas preveem reduções em agressividade das crianças ao longo do tempo”. Ou seja: bater, ao invés de ajudar, atrapalha.

E esta não é a única pesquisa científica que comprova todos estes achados. Outra pesquisa, com mais de 36 mil participantes, chegou à mesma conclusão sobre os efeitos prejudiciais das agressões físicas. Além disso, uma série de outras pesquisas mostram que uma infância com castigos corporais aumenta a chance de um casamento com castigos corporais. Isso tudo porque o famoso ‘tapa de amor’ ou ‘tapa para educar’ se mostra uma contradição da pior espécie: o perigo de fazer a conexão entre amar e machucar as pessoas deveria ser evidente e perpassa as relações familiares para os relacionamentos conjugais.

“Quem bate em um filho dizendo que foi por amor, está ensinando a ele que é perfeitamente possível apanhar e, ainda assim, amar. E -sim!- esse pode ser um dos reforçadores da violência doméstica futura, ou da criação de laços amorosos doentios. baseados na violência.” (Sena & Mortensen, “Educar sem violência”, Editora 7 Mares, p. 73)

O blog Crescer Sem Violência, é uma fonte muito rica de diversos estudos e reflexões sobre esta temática. Além disso, em outra postagem do blog, falamos um pouco sobre o estudo de uma pediatra sobre como os traumas de infância afetam a saúde ao longo da vida por um ponto de vista para além do psicológico (porém, estabelecendo uma relação inevitável com este) mostrando efeito s biológicos destas vivências.

Fonte da imagem: Cientista que virou mãe

“Eu apanhei dos meus pais.”
“Eu bato nos meus filhos.”
E agora?

Esta é uma questão delicada. Muitos adultos que apanharam e que batem em seus filhos argumentam que isso não lhes atrapalhou e que os fez serem pessoas “direitas”. Porém, a experiência clínica nos mostra o contrário. Ter apanhado dos pais em maior ou menor grau, gera uma série de efeitos em nosso psiquismo, tão diversos quanto a própria diversidade humana. Isso acontece porque cada um tem sua história e a vive de maneira única, dando seus próprios significados. Enquanto o “efeito colateral”, por assim dizer, da palmada em uma pessoa foi a dificuldade de confiar no outro; em outra, pode ser agressividade; em outra, depressão; em outra, a busca por relacionamentos abusivos. O trabalho psicológico se mostra como uma forma de poder entrar em contato com estas questões, compreendendo-as e poder encontrar novas possibilidades de ser para além destas vivências e apesar destas vivências.

Por essas e outras, fica nítida a importância de poder trabalhar não apenas na vida adulta, mas também na infância/adolescência estas e outras experiências, num movimento de cuidado, prevenção e promoção de saúde às crianças, adolescentes, adultos e também de seus cuidadores. A saúde não deve ser vista de uma forma isolada. Ela envolve nosso corpo, nossa mente, o mundo em que vivemos e as relações que estabelecemos. É com isso em mente que podemos cuidar melhor das pessoas e sermos pessoas mais saudáveis.


ATENÇÃO: O conteúdo deste site é de caráter informativo. Se você precisar de ajuda especializada, não hesite: entre em contato com um(a) profissional da sua cidade. Sempre que for utilizar algum texto de minha autoria, o faça em formato de citação, com os devidos créditos e link para a postagem original.

2 Responses to Estudo americano comprova: bater não educa – entenda por quê

  1. Deveria ser tão obvio que bater em criança é outra forma de violência doméstica. A ideia de que bater em filhos é uma forma válida de educa-los está ali do lado da idéia de que bater na esposa pra mante-la disciplinada.

    Por que é tão dificil para algumas pessoas entender que criança é gente, e merece os mesmos direitos humanos de qualquer adulto?

    (ps: oi!)

    • Oi Natalia! Pois é… Infelizmente a violência ainda se perpetua na mente e na educação de muita gente. E como a pesquisa mostrou, isso gera um tipo de cultura, um ciclo que se perpetua por gerações de pais-filhos e também de matrimônios. Quando se cresce aprendendo que quem ama bate, agride, xinga, humilha, tendemos a levar essa forma de relacionamento pras relações amorosas. Tais repetições são inconscientes e podem ser exploradas em terapia para buscar uma reformulação dessas vivências.

      P.S.: Oi! <3 Gostasse da “reforma” que fiz por aqui?! :3

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