Eu estou pensando em escrever este texto há bastante tempo. Já comecei várias vezes, mas como encontro dificuldades em me expressar tão claramente quanto desejo, então decidir ir de uma vez e, caso necessário, ir modificando até ficar claro o suficiente. Dito isso, vamos lá…
Não é novidade pra ninguém que eu sou atéia desde que me entendo por gente. Em vários textos do blog já contei sobre como se deu essa construção da minha descrença que se deu por inúmeros motivos, porém todos eles oriundos de uma profunda reflexão sobre mim, o mundo e as religiões às quais fui apresentada. O ateísmo em si não é uma religião por motivos óbvios, mas ela se diferencia das demais religiões por outro fator importante: não há mandamentos universais, não há castigos, ameaças, não há uma opinião considerada ‘certa’ ou ‘errada’. Deixe-me explicar melhor: eu não estou dizendo que os ateus (as pessoas) não tenham tais idéias, eu estou dizendo que o ateísmo (o conceito) por si só, não as ‘prega’ como as demais religiões.
No entanto, o que eu vejo que anda acontecendo é uma tentativa de unificação do ateísmo, uma tentativa de ditar o que é certo e errado para os ateus. E isso me incomoda profundamente. Vejam: o ateísmo por si só, o conceito, significa descrença em deus ou deuses, em força(s) soberana(s) que criou o universo. Nada mais. Nada menos. O ateísmo não prega igualdade dos direito femininos, não prega o direito igual aos homossexuais, não prega a extinção das religiões, nem nada disso. Quem assim o faz são ateus e não o ateísmo. Espero que tenha ficado clara a minha distinção. Vou tentar exemplificar melhor: eu, Nathálya, atéia, sou a favor da igualdade de direitos entre homens e mulheres, sou a favor da união entre homossexuais, mas eu sou a favor de tudo isso por minhas próprias convicções e não porque alguma instituição me disse para ser. O ateu não deve responder à nenhuma instituição religiosa, não há nenhum livro como a bíblia no ateísmo, não há um líder como o Papa no ateísmo, não há um poder soberano que dite o que deve ou não ser feito por um ateu. Ele é um ser humano livre e que usará de sua ética e moral apreendidas em sua educação civil, acadêmica e familiar para elaborar suas próprias convicções.
Há ateus que são a favor da extinção das religiões. Há ateus que são contra a extinção das religiões, que acreditam que cada um deve ser livre para escolher o que melhor lhe preencher. Da mesma forma, há evangélicos contra a união homossexual e há evangélicos que não vêem nada demais. Há católicos que viram na Inquisição uma necessidade, há católicos que acharam aquilo uma barbárie. Há muçulmanos que concordam com as guerras santas, há muçulmanos que querem a paz. Veja, mesmo nas religiões onde encontramos um livro sagrado e um líder, temos uma variedade imensa de pensamentos e opiniões. O mesmo (salvo as devidas diferenças, óbvio) ocorre no ateísmo. E, como eu disse, estou vendo acontecer ultimamente uma tentativa de unificar o pensamento ateu e acho que isso é, no mínimo um absurdo e uma distorção do conceito do termo ateísmo.
Eu não respondo à um líder, eu não concordo com tudo que um ateu diz, eu não concordo com tudo que um autor de livros que seja ateu diz. Eu sou um ser humano livre que entende que a vida é um acontecimento raro e maravilhoso e que a cada dia avançamos mais na compreensão do universo e tudo que há nele. Eu não acho que as religiões devam ser extintas e reconheço a importância delas no começo da humanidade, pois foi a partir das verdades infundadas das religiões que surgiu a ciência para tentar comprovar/incomprovar e explicar. Discordo de 99% das palavras religiosas, mas não tiro o direito de elas existirem desde que saibam respeitar minha descrença. Não saio por aí tentando ‘converter’ crentes, mas me deixo disponível caso alguém queira saber mais sobre minha descrença. E isso entra em outro ponto que eu gostaria de falar: a conversão ateísta.
Vivemos em um país religioso e eu me lembro de quando eu era criança, ter vindo a seguinte pergunta numa tarefa de casa: “qual a sua religião?”. Eu não fazia a menor idéia e perguntei à minha mãe: “qual a minha religião?”. E ela disse: “católica”. E foi assim que eu coloquei na minha tarefa e era assim que eu respondia quando me perguntavam mesmo sem ter idéia do que ser católica significava, mesmo sem saber que haviam outras religiões, mesmo sem saber de nada dos detalhes. O tempo vai passando, a gente vai conhecendo mais as coisas e começa a questionar sobre a veracidade delas e o sentido delas em nossa vida. Bem resumidamente, foi a partir disso que cheguei à conclusão que deus não existe e que não há nenhum motivo para temer inferno ou almejar o céu, que minha vida é um evento único e raro e que devo fazer o melhor possível para ser feliz e fazer o bem enquanto eu existir.
Só que eu venho observando uma tentativa por parte de alguns ateus de convencer religiosos sobre a inexistência de deus. O que antes acontecia entre uma conversa de ateus para compartilhar suas convicções, agora virou argumento de conversão. E eu já vi em páginas de ateísmo depoimentos emocionados de pessoas que se converteram ao ateísmo e agora estão felizes. Isso te lembra alguma coisa? Claro que lembra. O mesmo papo acontece naqueles programas evangélicos que passam de madrugada. Eu acho isso simplesmente ultrajante. Você está interferindo na liberdade de pensamento de alguém e plantando suas idéias nele. O ateísmo deve ser uma descoberta livre, autônoma, que leva tempo e reflexão, e não uma arma de conversão. Inserir a idéia do ateísmo em uma pessoa que não buscou isso por si só, que não se questionava sobre as coisas é tolher sua liberdade de pensamento, é lavagem cerebral igual àquela das religiões, é errado (ao meu ver).
Adoro conversar com meu namorado, que também é ateu, sobre as incoerências religiosas, sobre as inconsistências, sobre as ‘provas’ que eles mesmos dão. Os DOIS são ateus e estamos compartilhando nossa descrença. Nem eu, nem ele chegamos pros nossos amigos religiosos e começamos a relatar as incoerências bíblicas e nem tentar converter ninguém. Quando um religioso vem debater comigo, geralmente eu mostro pra ele porque aquele argumento não faz sentido pra mim, mas não fico tentando provar que ele está ‘errado’ ou que eu estou ‘certa’. Eu falo sobre minhas convicções e porque elas fazem sentido pra mim ao invés das dele. Religião é dogma, dogma é inquestionável, e ainda tem gente que se surpreende com declaração do papa! Ele tá fazendo o papel dele enquanto representante daquela instituição religiosa. Enfim, comecei a fugir do assunto, então: resumindo…
Sou atéia, sou muito feliz por ser atéia, discordo imensamente do que pregam as religiões, não saio por aí convertendo ninguém pro ateísmo, não acho que deva existir entidades ateístas com o objetivo de ‘pregar’ o ateísmo, não gosto desse militarismo ateu que está ocorrendo recentemente pela internet, infelizmente percebo que o ateísmo virou moda pra muitos adolescentes revoltados que sequer sabem do que estão falando e que sequer refletiram sobre a existência ou inexistência de deus e, por fim, acredito que as entidades ateístas existentes devam lutar pelo respeito entre religiões, expansão de programas científicos, incentivo à educação, apoio à ateus que sofrem socialmente e familiarmente com sua descrença, ajudar pessoas com necessidades (já que não existe nenhum deus que vai ajudá-las, apenas humanos) ao invés de tentar converter gente por aí. É isso.








