Hoje faz (ou fazem, não me lembro da regra) 5 dias que eu fui assaltada com o meu namorado. Dia este em que perdemos tudo. Diariamente eu revivo aquele momento, no mínimo, 20 vezes. Quando acordo, durante o dia e, principalmente, antes de dormir. Ainda me parece surreal ter perdido tanto em tão pouco tempo.
A cada vez que relembro aquele pesadelo, penso que deveria ter feito algo diferente: que deveria ter gritado, que deveria ter corrido, ou ainda me negado a dar a bolsa, ter brigado com eles, ter pego o ônibus que tinha passado minutos antes, mas que ia demorar mais pra chegar em casa, ter ficado mais tempo no restaurante conversando… A vida é esse emaranhado de coincidências e nós, sem saber, acabamos tecendo o nosso destino a cada mini decisão que tomamos.
Esse sistema é justo, mas ao mesmo tempo é cruel. A impossibilidade de voltar ao tempo e consertar algo pífio como ter pego aquele ônibus que tava lotado e que ia te fazer demorar mais a chegar em casa, de repente ganha uma importância tão grande. Eu teria minhas coisas, meu dinheiro, meu namorado teria o notebook dele e as coisas que lutamos tanto pra comprar.
Às vezes fico pensando nisso e me culpando. Mesmo sabendo que tomei minhas decisões às cegas, sem saber qual seria o meu destino, às vezes me sinto culpada. Às vezes me sinto como naquele filme ‘Efeito Borboleta’, que mostra perfeitamente como a vida funciona, como tudo é a mais pura teoria do caos. Às vezes fico desejando ter aquele poder de voltar um pouquinho no tempo e ter evitado aquilo, ou até mesmo me arriscado a fazer alguma coisa.
O medo de morrer congela a gente. O medo de morrer me congelou. O medo de morrer congelou o meu namorado. Já tentaram assaltar meu namorado muitas vezes, mas ele sempre reagia e nunca levavam nada. Desta vez, ele não reagiu pq teve medo de me perder. Me perder era pior do que perder a mochila, o notebook e tudo que havia neles. Mas, ainda assim, eu queria saber o que teria nos acontecido se tivéssemos coragem pra dizer não. Se, por um minuto, tivéssemos perdido o medo da morte e de perder o outro. Às vezes me pergunto se teria funcionado, se ainda teríamos um ao outro e teríamos nossas coisas. Infelizmente, eu nunca vou ter essa resposta.
O fato é que eu e ele, naquele segundo, tomamos nossa decisão de, pacificamente, entregar nossas coisas e isso nos trouxe ao momento que estamos agora. É incrível como uma experiência compartilhada por 99% das pessoas teve um impacto tão grande em mim. Deve ser porque eu não aceito. Deve ser porque eu não consigo achar normal ou comum. Deve ser porque eu discorde de todo mundo no que se trata da maioria das coisas. Se tomarmos a definição de normal como ‘aquele que pertence a uma maioria’, certamente eu não sou. Ainda bem. Acho que eu não me reconheceria no dia que achasse normal alguém chegar até você e, por ameaça de tirar sua vida, levar tudo que está dentro dela.
Esse assalto me fez passar por duas coisas extremamente difícieis: o assalto em si; e trabalhar sorrindo no outro dia. Meu trabalho não me permite que eu simplesmente chegue, sente na minha cadeira e faça o meu trabalho. Eu me relaciono com pessoas 24h por dia. Eu não posso estar emburrada, eu não posso estar distraída, eu não posso estar triste ou mal humorada. Eu preciso estar bem.
Ao acordar no outro dia, 99,99% de mim tinha certeza que eu não ia conseguir fazer aquilo. Que, além de ter levado todo o material do meu treinamento, aqueles ladrões tinham levado toda motivação que eu sentia pro meu trabalho. Nunca foi tão difícil colocar uma roupa e sair de casa. Nunca foi tão difícil guardar tudo aquilo que eu tava sentindo, e que tinha acontecido comigo há apenas algumas horas atrás, dentro de uma caixinha, esquecer, sorrir e continuar meu treinamento. O fato de eu ter conseguido fazer isso me deu uma força tão grande, me deu uma sensação de que eu iria conseguir recuperar tudo o que perdi e ainda conseguir tudo melhor.
Foi como um treinamento intensivo de 1 dia em psicologia clínica. Pq, futuramente, na minha profissão (caso eu decida exercer a clínica), meu mundo pode ter se acabado, mas eu vou ter que honrar o compromisso que firmei com meus pacientes e estar no local e horário marcado não apenas fisicamente, mas psicologicamente também. Pronta pra fazer o melhor que puder pra ajudar aquela pessoa. O dia seguinte pra mim foi, realmente, uma prova de fogo.
Tava vendo uma reportagem esse final de semana e um senhor contou que, em 12 anos, foi assaltado mais de 60 vezes. Façam as contas: 12 anos tem 144 meses; dividido por 60 assaltos dá uma média de, aproximadamente, um assalto a cada um mês e meio. Isso é um absurdo! Como pode alguém tirar algo que é seu de direito através da força? Só porque você tem uma arma, porque é mais forte, significa que você tem o direito de tomar o que é meu? Não. Não tem. Isso é loucura.
Mesmo pensando nisso várias vezes ao dia, mesmo sabendo que todas aquelas coisas que tinham dentro da minha bolsa e que eram tão importantes pra mim não vão valer de nada pra eles, ser jogadas no lixo ou serem vendidas por valores ínfimos, mesmo sabendo que eu posso e vou me recuperar, mesmo sabendo que eu tenho minha vida e a vida do meu namorado, eu desejo muitas coisas negativas àquelas pessoas.
Não precisava nem sofrer, pra mim já me bastaria saber que eles deixaram de existir, que morreram. Eu não penso em vingança ou sofrimento, eu não acho que um mal se conserta com outro (mesmo que a gente acabe desejando isso às vezes). Eu me sentiria melhor só de saber que eles não existem no mesmo mundo que eu. Talvez isso soe mal, talvez eu deveria tentar perdoar, mas eu não acho que deva. Preciso ser sincera comigo e com os meus leitores de como eu me sinto. Eu, muito honestamente, desejo que eles morram.
Tirar a vida de outra pessoa é horrível, mas tão ruim quanto é estuprar uma mulher; tão ruim quanto é aplicar um golpe num aposentado que usa aquele dinheiro pra pagar seus remédios e se manter vivo; tão ruim quanto é tirar de alguém aquilo que é seu, que lhe é de direito, por meio da violência e da força; tão ruim quanto é não respeitar o direito e a liberdade do outro; tão ruim quanto é mentir e manipular para prejudicar a vida de alguém; tão ruim quanto é, inclusive, preservar a vida, mas negar ao outro tudo que há dentro dela.