Os dias que se sucederam depois de eu ter escrito o último texto foram bem difíceis. Meu amigos da área de saúde me alertaram que o que a minha razão me dizia (e eu insistia em ignorar) era verdade e eu precisava de ajuda. Fiquei surpresa com a iniciativa de tentarem me ajudar, apesar de ter durado pouco tempo. Talvez eu finja bem demais que to bem. É engraçado isso porque eu não gosto de fingir nada, sou uma das pessoas que menos mente, mas eu consigo fingir que to bem, ou que to só preocupada, ou alguma coisa do tipo.
Fiquei me perguntando porque faço isso. Eu gosto quando as pessoas se interessam em conversar comigo e saber como eu to etc, mas eu não gosto quando elas ficam insistindo pra eu dizer ‘o que é’ que eu to sentindo. Lembrei agora do meu trabalho de fenomenologia. As matrizes cientificistas, onde se pode incluir o positivismo, queriam saber ‘o que são’ as coisas. Já as matrizes compreensivistas, onde se inclui a fenomenologia, querem saber ‘como são’ as coisas. Eu queria amigos mais amigos da matriz compreensivista, mas a maioria é da cientificista. Acabo de perceber que, falando assim, pode ser que você que esteja lendo não entenda o que eu quero dizer. Tudo bem.
E então, mas o problema é que as pessoas só querem saber ‘o que é’ e depois vão embora. Depois de saciada sua curiosidade, depois de descoberto ‘o que é’, o sofrimento psíquico do outro deixa de ser interessante e as falas passam a ser clichês do tipo ‘você consegue’, você é forte’, ‘você já passou por coisa muito pior’ e às vezes ‘você precisa de ajuda’. E é aí que chega um ponto interessante. Como falei no começo, amigos da área de saúde se preocuparam, reconheceram na minha fala uma necessidade de ajuda profissional. E eu recusei.
Ora, futuramente eu serei uma das opções de ajuda profissional, mas no entanto estou recusando tal ajuda? Parece paradoxal, né? E é mesmo. Nada contra a ciência da psiquiatria ou da psicologia, é simplesmente porque eu não tenho motivação, força, coragem ou energia pra sair de casa para tais consultas. Nem dinheiro também. E as consultas de opção gratuita são ainda mais longe da minha casa. Se eu tivesse carro, acho que eu iria, até porque, dirigir me dá prazer. Mas, de ônibus, em Recife, ainda mais esse ano que está sendo o ano mais violento de todos? Não, não. Quero não. Tenho medo e me falta coragem.
Se tais amigos que me ofereceram indicação profissional me chamassem pra tomar uma cerveja, pra bater um papo, pra sair e conversar besteira, me divertir, certamente eu iria com o maior prazer do mundo e acho que seria ótimo pra mim. Meu problema sempre foi a distância entre meus amigos. Eles não tem carro, nem eu, e moram distantes de mim, então fica mais difícil estabelecer uma rotina semanal de se ver, trocar uma idéia e rir um pouco. E aí, por consequência, a gente acaba se afastando um pouco.
E eu não consigo criar amizades com as pessoas que moram perto de mim porque no meu bairro as pessoas tem mais dinheiro, mais influencia, mais bla bla bla e daí já tem seus grupinhos de amizade. Ou ainda, eu não consigo acompanhá-los nas saídas, etc porque eu não tenho o tal do dinheiro. ENFIM. Bagunça, né? Hahahahahaha
Daí que eu acabei voltando a faltar na faculdade porque eu não tinha vontade de sair de casa e, porque, quando eu saía de casa sem força de fingir que tava bem, acabava sendo grossa com alguém sem querer. O povo da minha faculdade é muito ‘delicado’. Eles são grossos a toda hora com todo mundo, mas como rola uma implicância comigo, se eu falo alguma coisa mais ou menos, já entendem como grosseria absurdamente gigantesca. Por causa disso acabei brigando com uma colega minha que agora nem ‘bom dia’ mais me dá e acabei sendo grossa sem querer com duas senhoras do meu período. Aí pronto, evitando a faculdade pra não fazer merda maior.
Quinta-feira passada foi o dia da minha prática profissional e é o dia que eu mais amo na semana. Só que eu tava tão derrubada que não consegui ficar lá. Só conseguia ficar sentada, fazendo nada. Não tinha ‘cara’, nem força pra ir falar com as pacientes e saber a história de vida delas. Eu sentia como se eu fosse deixar elas piores do que já estavam. Então me desculpei com o pessoal de lá, fui pro Centro Acadêmico do hospital, fiquei lá estudando e depois voltei pra casa.
Meu namoro que tava numa crise, acabou de vez na sexta-feira. Eu acabei porque, enfim, não tinha mais forças nem paciência pra nos ajudar, etc. No mesmo dia à noite ele veio na minha casa e me deu um beijo que, de repente, tudo parecia estar bem de novo. Me deu um boost de força pra continuar lutando pelo namoro da gente. Percebi coisas que não tinha percebido antes e algumas coisas mudaram pra melhor dentro de mim. Então voltamos e está tudo mil vezes melhor agora. Acho que o choque do fim do namoro acabou sendo positivo neste caso. Acredito que as coisas vão melhorar pra nós dois.
Sábado eu tinha trabalho voluntário no hospital, mas eu tava tão desgastada da semana de cão que eu tava tendo, do choque do fim do namoro na noite anterior, que eu faltei e fui pra casa da minha avó com meu namorado pra comer o almoço gostoso que ela faz, ficar jogando video game e rindo com o pessoal vendo TV. Foi ótimo e eu não podia ter feito uma escolha melhor. O domingo também foi ótimo! Chegou a segunda feira e fodeu tudo. Hoje, terça-feira, também. Não fui à faculdade nestes dois dias. Pra piorar, não tenho nenhum trocado pra comprar biscoito de chocolate e forçar umas pequenas descargas de serotonina. Mas hoje acordei melhorzinha e acho que mais tarde vou estudar o conteúdo que perdi. Aos pouquinhos, eu sinto que to melhorando. Bem devagarzinho. Vejamos…