Quando o corpo fala, ele não mente – você está escutando seu corpo?

Para tratar um pouco sobre as doenças de origem emocional e as doenças psicossomáticas, lembrei-me do relato de um caso feito por uma médica no Facebook e que ilustra perfeitamente sobre o tema que eu gostaria de comunicar. Júlia Rocha, médica da família e comunidade, compartilhou a história de um atendimento emocionante e que serve de exemplo para falar um pouco sobre uma forma de adoecimento que ainda é desconhecida por muitos e que a cada dia se mostra mais e mais rica para estudar os efeitos e a relação entre corpo e mente. Segue abaixo o relato da profissional.

A história de Fabiana, tão belamente retratada por esta médica é uma história comum a muitas pessoas. Como ela certeiramente disse: sua tristeza virou dor. Muitos não cuidam do seu emocional, e ao viver situações difíceis da vida isso acaba tendo um preço caro para sua saúde. Outras pessoas, por sua vez, cuidam tanto de todo mundo que esquecem de cuidar de si e sua saúde vai ficando cada vez mais prejudicada. Precisamos estar atentos ao que nosso corpo fala.

Você deve perceber que aquela dorzinha de cabeça, aquela prisão de ventre ou ainda aquela dor de estômago acontecem justamente quando estamos passando por momentos difíceis ou estressantes. É preciso atenção e cuidado, pois tanto pode ser algo pontual e passageiro – mas que também sinaliza questões importantes que precisam ser tratadas -, como pode acabar se instalando de forma mais permanente como foi no caso trazido.

Fonte da imagem: Holistic Practitioners Network

Uma doença psicossomática não é uma doença imaginária. É uma doença  – ou um conjunto de doenças – orgânica, porém de causas psicológicas. No entanto, quando conversamos com pessoas do nosso cotidiano sobre os nossos sintomas e sobre o que está se passando, tendemos a ouvir coisas do tipo:

Isso não é nada!
Isso é coisa da sua cabeça!
Isso é apenas psicológico!

Essas frases são muito perigosas… Por causa desse tipo de pensamento, acabamos tirando a importância do que está acontecendo – tratando como coisa imaginária, num sentido pejorativo -, quando o nosso movimento deveria ser justamente o contrário: se o meu corpo está adoecendo por conta de um aspecto emocional, ele está me sinalizando a importância de olhar para isso e poder compreender o que está acontecendo. Não é porque algo é psicológico, que este algo é imaginário, fantasioso ou fora do real; muito menos que deva apenas ser ignorado e que não tenha importância o suficiente para receber tratamento. Quando estamos falando de doenças psicossomáticas, o psiquismo está demonstrando de forma muito clara como tudo o que está ocorrendo internamente é bastante real.

Além disso, as psicopatologias psíquicas – sejam elas psicossomáticas, somatizações, ou até mesmo psicopatologias de uma forma geral – geram muito sofrimento e de grande importância, atrapalhando a vida e o bem-estar do sujeito.

Fonte da imagem: IJEP

O tratamento dos sintomas físicos é geralmente o primeiro a ser buscado. Vemos o corpo, mas não vemos a mente, então tendemos a dar importância primeiro ao tratamento daquilo que vemos. Além disso, mesmo quando sabemos que aquele sintoma tem origens psicológicas, há uma resistência muito grande por parte de muitas pessoas de buscar um tratamento psicológico.

É muito difícil falar sobre o que me faz sofrer, é mais fácil tomar uma pílula, ou passar uma pomada.

Porém, o que vemos acontecer nestes casos em que o psiquismo está participando ativamente do processo de adoecimento, é que o tratamento do corpo é realizado, porém os sintomas não desaparecem. Quando muito, eles são apenas atenuados. E por que eles não desparecem? Por que é tão difícil, por exemplo, o tratamento de uma psoríase? Porque não estamos falando de uma lesão cutânea causada apenas por um agente biológico, orgânico ou externo; estamos falando de acontecimentos em nosso psiquismo que fazem com que nosso corpo reaja de tal forma para chamar nossa atenção para estas questões.

Vamos parar pra pensar… Diante do adoecimento “apenas” do corpo, podemos ter uma série de repercussões emocionais – ansiedade de diagnóstico, indisposição, insônia, sintomas depressivos por conta de uma internação hospitalar, medo da morte etc – podendo contar com o auxílio de profissionais como o Psicólogo Hospitalar, por exemplo. Agora imagine aquelas doenças em que a causa é justamente emocional? Como podemos tratar apenas os sintomas do corpo? É indispensável o tratamento psicológico em doenças de causas emocionais, em especial em doenças psicossomáticas.

Por isso, volto ao título desta postagem: quando nosso corpo fala, ele não mente. E você? Está escutando seu corpo? “Todas as respostas estão dentro de nós aguardando estrutura suficiente para acessá-las” (Autor desconhecido).


ATENÇÃO: O conteúdo deste site é de caráter informativo. Se você precisar de ajuda especializada, não hesite: entre em contato com um(a) profissional da sua cidade. Sempre que for utilizar algum texto de minha autoria, o faça em formato de citação, com os devidos créditos e link para a postagem original.

Estudo americano comprova: bater não educa – entenda por quê

Fonte da imagem: Rigueira Advocacia

Um estudo divulgado dia 07 de abril de 2016 no Journal of Family Psychology da American Psychological Association comprovou em números aquilo que muitos psicólogos defendem há tempos: bater não é uma forma de educar e ainda pode deixar uma série de sequelas no seu filho(a).

Se a palmada é útil ou não na educação das crianças, sempre foi tema constante de debate entre estudiosos e público. Pensando nisso, os pesquisadores Elizabeth Gershoff e Andrew Grogan-Kaylor iniciaram sua pesquisa. Os autores, se propuseram a abordar 2 questões persistentes sobre o tema: se os efeitos da palmada são distintos dos efeitos de um abuso físico; e se os efeito da palmada por si só é consistente para estudar diferenças.

“Nossa análise se concentra no que a maioria dos americanos reconhece como palmada, e não como comportamentos potencialmente abusivos”, disse Gershoff . A “palmada” foi definida pelo estudo como um tapa de mão aberta nas nádegas ou membros.

Meta-análises voltadas especificamente para a palmada foram realizados e identificados um total de 111 efeitos negativos com 160,927 crianças que foram acompanhadas por 5 décadas. Destes efeitos, 17 efeitos principais foram identificados. Além disso, 13 dos 17 efeitos principais indicaram uma ligação direta entre as palmadas e aumento do risco para o desenvolvimento de comportamentos agressivos, dificuldades cognitivas e escolares, psicopatologias e comportamentos antisociais.

Fonte da imagem: Poder Judiciário do Mato Grosso

Pra se ter uma ideia do quão prejudicial é a palmada, os resultados da pesquisa mostram que a magnitude dos efeitos não diferem substancialmente entre as palmadas, as surras e o abuso físico.

E a coisa piora: quanto mais frequentemente uma criança apanha, mais chances ela tem de desenvolver os efeitos descritos. Além disso, adultos cujos pais haviam batido neles também foram mais propensos a apoiar a surra e perpetuar o castigo físico para os seus próprios filhos, gerando um ciclo de violência e de prejuízos no desenvolvimento afetivo e pessoal.

Os pesquisadores enfatizam ainda que muitos pais estabelecem uma distinção clara entre surras benéficas e abuso físico prejudicial. No entanto, o que os estudos mostram é que tanto a surra quanto o abuso apresentaram resultados negativos nas crianças, quase no mesmo grau.

Fonte da imagem: Nerd Pai

Frequentemente os pais batem nos seus filhos como uma forma de reduzir o comportamento indesejável e aumentar o comportamento desejável. Buscando saber se a agressão parental (palmada) diminui a agressão na criança, a resposta encontrada foi categórica: NÃO. Na verdade, as palmadas tendem a aumentar a agressão infantil. “Uma palmada serviu de aumento na agressividade das crianças acima dos níveis iniciais [de comportamento agressivo]” e “em nenhum desses estudos longitudinais mostrou que as palmadas preveem reduções em agressividade das crianças ao longo do tempo”. Ou seja: bater, ao invés de ajudar, atrapalha.

E esta não é a única pesquisa científica que comprova todos estes achados. Outra pesquisa, com mais de 36 mil participantes, chegou à mesma conclusão sobre os efeitos prejudiciais das agressões físicas. Além disso, uma série de outras pesquisas mostram que uma infância com castigos corporais aumenta a chance de um casamento com castigos corporais. Isso tudo porque o famoso ‘tapa de amor’ ou ‘tapa para educar’ se mostra uma contradição da pior espécie: o perigo de fazer a conexão entre amar e machucar as pessoas deveria ser evidente e perpassa as relações familiares para os relacionamentos conjugais.

“Quem bate em um filho dizendo que foi por amor, está ensinando a ele que é perfeitamente possível apanhar e, ainda assim, amar. E -sim!- esse pode ser um dos reforçadores da violência doméstica futura, ou da criação de laços amorosos doentios. baseados na violência.” (Sena & Mortensen, “Educar sem violência”, Editora 7 Mares, p. 73)

O blog Crescer Sem Violência, é uma fonte muito rica de diversos estudos e reflexões sobre esta temática. Além disso, em outra postagem do blog, falamos um pouco sobre o estudo de uma pediatra sobre como os traumas de infância afetam a saúde ao longo da vida por um ponto de vista para além do psicológico (porém, estabelecendo uma relação inevitável com este) mostrando efeito s biológicos destas vivências.

Fonte da imagem: Cientista que virou mãe

“Eu apanhei dos meus pais.”
“Eu bato nos meus filhos.”
E agora?

Esta é uma questão delicada. Muitos adultos que apanharam e que batem em seus filhos argumentam que isso não lhes atrapalhou e que os fez serem pessoas “direitas”. Porém, a experiência clínica nos mostra o contrário. Ter apanhado dos pais em maior ou menor grau, gera uma série de efeitos em nosso psiquismo, tão diversos quanto a própria diversidade humana. Isso acontece porque cada um tem sua história e a vive de maneira única, dando seus próprios significados. Enquanto o “efeito colateral”, por assim dizer, da palmada em uma pessoa foi a dificuldade de confiar no outro; em outra, pode ser agressividade; em outra, depressão; em outra, a busca por relacionamentos abusivos. O trabalho psicológico se mostra como uma forma de poder entrar em contato com estas questões, compreendendo-as e poder encontrar novas possibilidades de ser para além destas vivências e apesar destas vivências.

Por essas e outras, fica nítida a importância de poder trabalhar não apenas na vida adulta, mas também na infância/adolescência estas e outras experiências, num movimento de cuidado, prevenção e promoção de saúde às crianças, adolescentes, adultos e também de seus cuidadores. A saúde não deve ser vista de uma forma isolada. Ela envolve nosso corpo, nossa mente, o mundo em que vivemos e as relações que estabelecemos. É com isso em mente que podemos cuidar melhor das pessoas e sermos pessoas mais saudáveis.


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Congresso Nacional de Microcefalia – On-line e gratuito!

Gostaria de convidar todos os interessados no tema a participar do Congresso Nacional de Microcefalia. Um evento organizado com intuito de prestar serviço às famílias de crianças com microcefalia, levando informações de grande relevância tanto para essas famílias quanto para os profissionais que contribuem ou que poderão vir a contribuir com o desenvolvimento destas crianças. A organização do evento está sendo realizada pela psicóloga e neuropsicóloga clínica Eliana Almeida, profissional extremamente competente que tive a sorte de ter tido como minha professora e que também é sócia fundadora do NANAP (Núcleo de Avaliação Neuropsicológica e Acompanhamento Psicoterapêutico) que se localiza em Recife.

Data: 09 a 15 de maio de 2016
Horários: 14h00, 17h00 e 20h00
Local: ON-LINE!
Investimento: GRATUITO!
Certificado: Sim, de 30 horas
Inscrições: http://www.congressomicrocefalia.com.br

Bônus: ao se cadastrar, você ainda recebe gratuitamente um e-book sobre Microcefalia com uma série de informações diagnósticas, tipos de microcefalia, cenário atual, causas primárias e secundárias, principais comprometimentos, entre outros.

Aproveitem essa oportunidade!

Nathálya Calina


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Jaulito: reflexões de um curta sobre a liberdade

“Jaulito” é uma animação espanhola lançada em 2008. Foi selecionada entre as finalistas do concurso de melhor curta-metragem de animação da Espanha no Artfutura de 2009. É dirigido por Javier de la Torre. Jaulito nasceu trancado em uma gaiola. Um dia ele consegue escapar com ajuda de um corvo, mas jamais imaginou que a gaiola que tirava sua liberdade, era a mesma que lhe ajudava a viver. (Trecho retirado da descrição do vídeo)

Estava Pensando…

Jaulito nasceu preso em sua gaiola, no entanto ele não sabia o quanto as grades que o prendiam eram frágeis – até mesmo um corvo poderia quebrá-la facilmente. Mesmo assim, ele permanecia ali. Afinal, o que realmente prendia Jaulito? De repente, o corvo quebra uma das hastes e ele sai para o mundo. No entanto, seu coração permanece na gaiola, pois este sim estava preso por uma corrente, muito mais resistente, e então Jaulito morre. Por fim, o corvo se alimenta dele.

O que realmente nos prende no lugar em que estamos? São as grades? Ou nosso coração, nossa mente, nossas emoções, valores e sentimentos que atribuímos às nossas gaiolas? Se Jaulito conhecesse bem seu cárcere, saberia que seu coração estava preso por elos muito mais fortes e que não bastaria simplesmente sair dela para estar realmente livre.

Além disso, a animação também pode servir de ilustração para a máxima que sempre ouvimos e repetimos durante a graduação em Psicologia: nem sempre eliminar o sintoma é bom: o sintoma pode ser justamente o que está sustentando o sujeito. Forçar alguém a sair da gaiola (tentando eliminar o sintoma) pode ser justamente o que o faz padecer (gera uma grande crise). Por isso o trabalho psicológico é tão delicado e tão pessoal. Cada pessoa, cada experiência, cada vivência, cada história é única e merece um olhar diferenciado.

Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro… há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. – Clarice Lispector em carta para sua irmã em 1947

Uma outra forma que pensei essa animação é olhar para a gaiola como uma psicopatologia. Suponhamos que a gaiola seja a um TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo): no íntimo, racionalmente, sabemos que se deixarmos de ligar e desligar o interruptor 12 vezes antes de sair de casa, nada de ruim acontecerá; mas por algum motivo nos sentimos aterrorizados com a hipótese de não fazer mais aquilo. Porque? Porque não é a grade que nos prende – aquilo que é visível e palpável, a “razão”, a “lógica” -, mas sim o nosso coração, nossa mente – que opera a partir de outros tipos de “razões” e “lógicas”.

No final, o corvo que libertou Jaulito se alimenta dele. Fiquei me perguntando: será que foi tudo um plano? Como uma animação de apenas dois minutos é capaz de nos fazer refletir tanto, não é mesmo? E você? O que esse vídeo te fez pensar?


Encontrei o vídeo através do site CONTI outra.


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