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A psicologia e o Dia Internacional do Orgulho LGBT

Fonte da imagem: Maria do Céu

No dia 28 de junho de 1969, policiais entraram no bar Stonewall Inn, em Nova York, nos EUA, para uma suposta vistoria. O bar era um reduto LGBT e ficava em uma vizinhança do mesmo tipo, porém, na época, a homossexualidade era considerada uma doença, e os gays eram perseguidos e não podiam consumir álcool. A ação resultou em protestos contra a opressão, tornando-se um dos maiores marcos na luta contra a homofobia. A data ficou marcada como uma forma de celebrar o orgulho LGBT.
Fonte: Megacurioso

O movimento já passou por diversas fases e teve várias siglas diferentes. Atualmente, a sigla LGBT corresponde à Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais/Travestis – por conta disso, também é comum encontrar a sigla como LGBTT (visto que, travestis e transsexuais não são a mesma coisa). A diversidade de expressão de sexualidade e de gênero é tão diversa quanto a própria humanidade e isso acaba dificultando ao se pensar em uma sigla que consiga representar todo o movimento.

Em 17 de maio de 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista internacional de doenças. Nem por isso, infelizmente, os efeitos de uma cultura de exclusão recheada de estereótipos negativos deixaram de perseguir homossexuais, travestis, transexuais e demais pessoas que se encaixavam em uma identidade sexual e de gênero diferente da considerada padrão pela sociedade.

Em 1999 o CFP (Conselho Federal de Psicologia) publicou uma resolução (Resolução nº 001/1999) que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual. Resumidamente, a resolução supracitada considera que a homossexualidade NÃO constitui doença, distúrbio ou perversão e considera, portanto, que ela é parte da identidade do sujeito, devendo o(a) psicólogo(a) contribuir com seu conhecimento para esclarecer as questões da sexualidade, permitindo a superação de preconceitos e discriminações (ainda tão presentes em nossa sociedade). Além disso, é vedado ao profissional de Psicologia qualquer conduta que vise a patologização desta questão, bem como de oferecer tratamentos que visem a “cura” ou a “correção” da sexualidade através de um modelo heteronormativo. Aproveirto e deixo a recomendação de leitura também do Caderno Temático do CRP-SP – Psicologia e Diversidade Sexual e da publicação do CFP intitulada Psicologia e Diversidade Sexual: desafios para uma sociedade de direitos.

É interessante que possamos conhecer, ainda que de forma superficial, o que se quer dizer quando se fala de sexualidade, afetividade, gênero e identidade. A variedade de expressões é imensa e a discussão das várias vertentes é muito mais aprofundada, mas vamos tentar dar conta de um pouco do tema de forma tranquila a título de informação com a imagem abaixo.

Fonte da imagem: UNIBH

O fato é que, independentemente do gênero, identidade, sexo, sexualidade, somos todos seres humanos. Isso quer dizer que todos nós, temos o direito de buscar auxílio e atendimento psicológico para nosso sofrer, sem sermos tratados com preconceito. Infelizmente, o número de pessoas que buscam ajuda e acabam se deparando com o preconceito dos profissionais de saúde de uma forma geral, ainda é muito grande. E, mais infelizmente ainda, por serem diferentes do padrão social e viverem em uma sociedade – e, muita vezes também em uma família – que não os aceitam ou os respeitam como são, sofrem ainda mais com uma série de inseguranças, sentimentos de inadequação e rejeição, dificuldades em relacionamentos amorosos (muitas vezes, se envolvendo em relacionamentos abusivos e tóxicos), dificuldades em suas carreiras profissionais, entre muitas outras.

Portanto, não desista de você e nem de sua saúde. Cuide do seu sofrimento, porque você também merece cuidados. Procure um profissional de confiança, que vá lhe tratar com respeito e mergulhe em suas questões pessoais, reescreva sua história e encontre forma mais saudáveis de se relacionar consigo e com os outros à sua volta. A psicoterapia também pode te ajudar. Boa sorte!


ATENÇÃO: O conteúdo deste site é de caráter informativo. Se você precisar de ajuda especializada, não hesite: entre em contato com um(a) profissional da sua cidade. Sempre que for utilizar algum texto de minha autoria, o faça em formato de citação, com os devidos créditos e link para a postagem original.

“De dentro pra fora: retratos de crianças transgêneras” um projeto fotográfico de Sarah Wong

Fonte das imagens desta postagem: The Huffington Post e Buzzfeed

A fotógrafa holandesa Sarah Wong iniciou em 2003 um projeto de fotografia (que virou livro) intitulado “Inside Out: Portraits of Cross-Gender Children” – ou, numa tradução livre, “De dentro pra fora: retratos de crianças transgêneras” – que busca retratar crianças que mudaram ou que estão em processo de mudança de gênero por se identificarem com um gênero diferente do que lhes foi determinado por conta do seu sexo.

Para você conseguir entender um pouco sobre essa questão, precisamos tentar conceituar dois conceitos chave: gênero e sexo. O sexo se refere à nossa genitália (em geral o pênis e a vagina, mas ainda há casos de pessoas que nascem com sexo indeterminado, intersexo, entre outros). O gênero, de forma bem geral e resumida, se refere à como nos vemos, nos conceituamos e nos sentimos: homem, mulher, travesti, agênero, entre vários outros. Esta é uma temática bastante interessante e ampla de se conhecer, permitindo entrar em contato com as mais diversas formas de ser e de sentir. Pretendo explorá-la em postagens futuras aqui no blog, mas como a esta visa mostrar o belíssimo trabalho da fotógrafa, não gostaria de me deter muito no assunto, apenas explanar de forma breve para os que ainda não estão muito familiarizados com a temática.

Wong fotografou as crianças envolvidas com a VU University em Amsterdã que estão envolvidas em um tipo de terapia que busca dar suporte à crianças que vivenciam a disforia de gênero. Algumas delas tomaram ou estão tomando uma espécie de “bloqueadores de puberdade” que visam retardar os efeitos da mesma até que eles decidam como querem viver suas vidas. De acordo com Wong, dos 20% de crianças com disforia de gênero, apenas poucas vão tomar os bloqueadores de puberdade. Aos 16 anos elas podem tomar hormônios e aos 18 fazer cirurgia. A idéia dos bloqueadores é retardar a puberdade para que as crianças possam ter tempo de explorar seus sentimentos. Os efeitos são reversíveis; parando de tomar as drogas, seus hormônios naturais voltam à ativa naturalmente. O efeito a longo prazo destes bloqueadores ainda é desconhecido.

Apesar de todas as crianças fotografadas estarem envolvidas com a VU University, as fotos foram tiradas nos locais onde elas mais se sentiam confortáveis: em suas casas, escolas, aulas de balé, etc. Todas as fotografias tiradas podem ser encontradas no livro homônimo ao projeto, publicado em 2011 com textos da jornalista de pesquisa médica Ellen de Visser.
Link do livro na Amazon. 

The Huffington Post conversou com Wong neste mês de maio sobre as crianças das fotos e sobre sua experiência em documentar suas vidas. Abaixo, separei alguns trechos da entrevista feita com a fotógrafa:

THP: Qual era o seu objetivo/intenção ao fotografar estas crianças?
SW: Meu objetivos era ajudá-las a encontrar a felicidade. Com suas fotografias eu queria empoderá-las- sem nenhum tipo de sensacionalismo jornalístico. Não queria que fosse um garoto usando um vestido ou uma menina com uma bola de futebol. Quando pessoas viam as fotografias elas diziam, “que crianças adoráveis, quem são elas?” As fotografias mostravam crianças bonitas com uma consciência forte: isto é o que eu realmente sou. No final das contas, somos todos os mesmos – almas que querem ser felizes e viver com compaixão.

THP: Quais eram as experiências das crianças na clínica?
SW: As crianças tinham boas experiências por causa dos bloqueadores de puberdade. O maior pesadelo de uma criança transgênera é ver seu corpo se desenvolvendo na direção errada. Um menino não quer ter seios e uma menina não quer ter barba. Os bloqueadores de puberdade dão alívio e tempo para pensarem e poderem crescer como adolescentes normais.

THP: Porque, como fotógrafa, divulgar estas histórias e experiências é tão importante?

SW: Como uma artista, seu trabalho pode ter um grande impacto na opinião pública. Eu sempre fui muito ligada em identidade e compaixão e muitas vezes sentida como uma psicóloga ou uma detetive-profiler do que uma fotógrafa. (…) É muito importante que a sociedade veja estas imagens – não há nada sensacional sobre crianças transgêneras. Novamente, no final das contas somos todos os mesmos: almas que querem viver felizes e dar sentido à sua vida e à vida dos outros. Foi durante o projeto que eu subitamente entendi porque essas fotos eram tão incrivelmente importantes para as crianças. Nelas, elas mostravam quem realmente eram. As fotografias serviam como uma espécie de prova forense para elas. Na maioria das vezes, a fotografia serve para expressar as emoções e o ego do artista. Bem, durante este projeto, meu ego encolheu a cada sessão de fotos porque eu que estava em serviço deles. E eu gostei muito da idéia das fotografias serem usadas para um propósito maior. (…)

THP: O que você espera que as pessoas tirem destas imagens?

SW: Eu verdadeiramente espero que a audiência do The Huffington Post tenha compaixão na sua forma de olhar. Isso significa olhar com o coração – livre de emoções pessoais. (…) O primeiro médico a ajudar estas crianças era um pioneiro. Durante os finais de semana ele era diácono numa igreja. A razão pela qual ele queria ajudar pessoas trangêneras era por conta de sua forma compassionada de olhar para elas – não como um médico, mas como um ser humano.

Em uma postagem do Buzzfeed, encontrei algumas citações feitas por crianças e seus pais:

“Isto é o que eu sou. Se você não vai à público, você não pode esperar que a sociedade entenda.” – Uma das crianças
“Parecia que era como tinha que ser. Ainda assim, foi muito doloroso. Eu ganhei uma filha linda, mas perdi um filho lindo… A vida nunca vai ser fácil pra ela. Eu tenho medo que partam seu coração” – Parente
“A decisão mais importante da minha vida como mãe foi dar à minha filha a oportunidade de viver como um menino. Isso é o que ele realmente é. Eu o vejo mais e mais feliz a cada dia” – Parente
“As pessoas não acharam estranho quando comecei a me vestir como uma menins, elas pensaram que eu finalmente estava sendo que eu realmente era.” -Uma das crianças


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